SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA MINHA CRIANÇA

Muito se tem pensado e pesquisado a partir do encontro entre a Neurologia, a Psicologia e a Educação; o surgimento das Neurociências abriu um leque de estudos sobre o desenvolvimento humano, a aprendizagem e o ensino. Para a Escola Vida, interessa compreender as novas descobertas de como os processos de aprendizagem se dão para que possamos pensar didaticamente o ensino de forma a favorecer o desenvolvimento da potencialidade de cada uma das nossas crianças, isto quer dizer: que cada um possa ser tudo o que tem capacidade para ser, a Escola trabalha para possibilitar isso. Trabalhamos com a faixa etária de maior plasticidade cerebral, são inúmeras as possibilidades de estimulação. A Escola tem as crianças por algumas horas do dia, nas demais estão sob os olhos e o estímulo das famílias e ficamos a nos perguntar: por que pais e mães não podem saber sobre aspectos relevantes do desenvolvimento infantil? De que forma podemos auxiliar as famílias na tarefa mais importante de nossas vidas que é educar nossos filhos?

Pois bem, além de informações e sugestões que são dadas pelos Professores no cotidiano, e das orientações dadas nas reuniões específicas seja com a Professora ou com a Orientadora Educacional, estamos multiplicando também informações que julgamos importantes para o desenvolvimento infantil. Tudo isso pensando na felicidade; felicidade é um sentimento resultante de ações e acontecimentos que dão certo, que nos trazem satisfação e realização. E para que o ser humano possa ser feliz ele precisa aprender competências e habilidades cognitivas, emocionais e sociais para bem estar no mundo, para bem se desempenhar nas tarefas da existência.

Nascemos como lindos e fofos “bichinhos”, sem recursos de sobrevivência se não formos cuidados. Precisamos aprender a comer com talheres, a falar com objetivo de comunicação, a usar vestimentas adequadas, a respeitar os outros ao nosso redor, a ler, escrever, calcular, etc. e, assim, vamos nos apropriando da cultura dos humanos. A capacidade de conhecer é fruto das trocas que fazemos entre nosso organismo (máquina humana e seu potencial) e o meio (estímulos externos).

Para que a aprendizagem ocorra, um conjunto de sistemas funcionais neuropsicológicos participa de forma concomitante e simultânea. Dentre estes sistemas estão as funções executivas que são uma variedade de habilidades cognitivas que estão envolvidas na organização e na regulação do comportamento. Elas ajudam a orientar nosso comportamento para atingir objetivos e à solução das situações novas e, se engana quem pensa que os bebês estão livres desta construção, desde muito cedo, já nos primeiros meses de vida, vão atribuindo significado ao mundo que os cerca, e vão compreendendo-o conforme os estímulos que lhe são fornecidos são processados e, por isso, é tão importante sabermos disso.

Mas quais são as funções executivas de que estamos falando? Vamos a elas e a exemplos de comportamentos associados à dificuldade em sala de aula:

1. Memória de trabalho (operacional – curta duração) – permite sustentar a informação em nossa mente e ao mesmo tempo utilizá-la, como por exemplo (para crianças bem pequenas) receber a solicitação de pegar o brinquedo que caiu ao chão e colocá-lo na caixa. É a mesma memória que permite um cálculo matemático onde precisamos guardar dados momentâneos e que depois podem ser descartados. Déficits na memória de trabalho estão associados a transtornos de desenvolvimento e dificuldades de aprendizagem, como Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), dislexia e discalculia.

Comportamentos observados associados às dificuldades nesta função:

– não segue as instruções das tarefas;
– não consegue manter as informações por tempo suficiente para usá-las;
– tem dificuldades para fazer cálculos ou solucionar problemas matemáticos mentalmente;
– durante a leitura tem dificuldade em conectar a informação de um parágrafo com o outro e, geralmente, não compreende o que lê;
– numa recontagem de história ou em uma atividade de escrita, tem dificuldade em organizar as informações em uma ordem temporal coerente (começo, meio e fim);
– a partir de um início de história, tem dificuldade de criar sobre ela, para continuá-la em uma produção textual.

 

2. Controle inibitório – é o processo de focar (“ligar o cérebro”) e manter a atenção, escolhendo estímulos importantes para o momento e minimizando a interferência dos distratores. É com essa função que conseguimos controlar nossos impulsos e emoções não desejados e focar no que é importante, levando as tarefas até sua conclusão com a eficiência necessária.

Comportamentos observados associados às dificuldades nesta função:

– interrompe a pessoa que está falando;
– não espera a sua vez para falar ou para jogar;
– é impaciente;
– fornece respostas sem pensar;
– age impulsivamente sem pensar nas consequências de seus atos;
– não resiste à vontade de ficar conversando ou brincando o tempo todo;
– distrai-se facilmente não conseguindo manter o foco na atividade;
– intolerância à frustração;
– tem dificuldades para controlar as emoções (grita, bate, chora).

 

3. Flexibilidade cognitiva – refere-se à habilidade de trocar de tarefas, metas ou contextos mentais para respostas rápidas frente a mudanças imprevisíveis no ambiente. É o deslocamento da atenção de uma informação a outra, ou de uma tarefa a outra. É o que acontece quando estamos esperando uma vaga para estacionar a nossa frente e surge uma outra atrás de nós; precisamos mudar a estratégia para poder estacionar e fazemos isso rapidamente. É essa habilidade que nos permite “pensar fora da caixa” e usar da criatividade que muda o mundo.

Comportamentos observados associados às dificuldades nesta função:

– tem dificuldade em lidar com a mudança na rotina;
– não demonstra criatividade para resolver as situações;
– apega-se a um detalhe, dificuldade para enxergar o todo;
– não consegue pensar em diferentes maneiras para solucionar um problema;
– mesmo frente a erros, não consegue mudar a forma como executa a tarefa, empregando sempre a mesma estratégia;
– tem dificuldade em mudar a forma como se comporta ou faz qualquer atividade;
– pode ter dificuldades em entender metáforas;
– não compreende pontos de vista diferentes do seu.

 

Vamos agora listar ações simples que podem ser utilizadas na rotina familiar e que ajudam a construir e consolidar o desenvolvimento das funções executivas em nossa criança:

– aprender a esperar – em pequenas situações do cotidiano corremos para satisfazer o desejo ou necessidade, ensine-a a aguardar pelo que deseja;

– vamos brincar e jogar com ela, muitas vezes ela ganha, muitas vezes ela precisa perder, chorar faz parte, perder também;

– estar junto não é a mesma coisa que dar atenção – dar atenção é fazer junto: brincar, jogar, ver filme, passear.

– criar hábitos saudáveis – sempre que for hora de comer precisa estar sentada em local apropriado, nada de comer sentada no chão ou com o adulto caminhando atrás ou dependendo de vídeos para parar quieta, a partir de 10 meses de idade a criança já pode iniciar a pegar a colher para alimentar-se “sozinha”; ter horário para dormir e para acordar, para o banho, etc.;

– atividades importantes como comer, dormir, higiene, ir à Escola, deveres de casa (no caso dos maiores), tomar medicação e outras que são fundamentais, não devem ser conduzidas com perguntas; no lugar de dizer “Vamos tomar banho?”, orientar afirmando “Agora é a hora do banho”. Só vamos perguntar aquilo que a criança tem escolha, o que é rotina e obrigação, não;

– o tema casa deve ter horário e local adequado sempre;

– andar pela rua sempre de mão com um adulto; o mesmo para o uso da cadeirinha no carro, não há opção.

– delegar pequenas e possíveis tarefas como, juntar brinquedos, dar comida ao cachorro, recolher a roupa suja para colocar no lugar certo, pendurar a toalha molhada, guardar sua roupa, etc., de acordo com a idade a tarefa;

– o sim é puro prazer, nossa maior missão é ensinar o não que é difícil, mas ensina que na vida nem tudo pode. Melhor ensinar o não com amor, em família, do que aprendê-lo na rua;

– aprender a dar o lugar ao outro – nem sempre será a primeira a sair, a ganhar, a …;

– dar tchau sempre que for sair e abraçar sempre nos reencontros – a criança precisa confiar em seus familiares, se eles não dão tchau e fogem como vai poder acreditar neles?

– dormir em seu quarto, na sua própria cama, sem medo do escuro, cria segurança e autoestima positiva, fazendo com que se construa forte e capaz. Ninguém nasce com medo, o medo e a dependência são criados pelos adultos;

– ajudar a organizar armários, classificar materiais, ter um lugar para livros, outro para brinquedos – classificar é uma capacidade mental importantíssima e é a base para todo o ensino da matemática;

– colocar os potes do lanche na mochila, fechá-la, carregá-la sozinha;

– na entrada e saída da Escola caminhar de mão depois do abraço e do beijo, puxando sua mochila – cada um carrega o que é seu;

– estimular que na hora do banho possa sentir-se capaz de lavar-se “sozinha”, mesmo que com os devidos “retoques” enquanto ainda necessários;

– aprender a desvirar as mangas dos casacos, colocar peças de roupa e calçados com independência é um exercício necessário e que garante uma boa autoestima, além de desenvolver motricidade;

– estimular que tenha iniciativa para organizar brincadeiras e sugerir atividades;

– falar com a criança, incentivar que ela fale para se comunicar, aprender os nomes dos objetos, animais, pessoas, etc. corretamente;

– toda criança tem um lindo nome, vamos usá-lo no lugar de chamá-la de bebê, isso ajuda a construir identidade;

– quando a decisão do desfralde for tomada, a família pode contar com a Escola; mas não funciona se for feito só no tempo de Escola. É uma aprendizagem que requer paciência e persistência, na Escola a criança tem o modelo dos colegas o que a incentiva a querer ser desfraldada;

– não devemos achar graça das atitudes erradas, o que hoje é visto como gracinha vira falta de educação logo após, e, um comportamento aprendido, é mais difícil de ser modificado, a criança fica confusa;

– olhar para a criança e fazê-la olhar para quem fala com ela, é estabelecer uma relação forte, não abra mão do olhar;

– se for necessário o uso do castigo (e será), que seja sempre acompanhado de uma boa conversa, que a pena não tome conta de nosso coração, precisamos ensiná-la a ser “do bem”;

– ler histórias, fazer perguntas, deixar que a criança invente histórias estimulando-a a imaginar e a encadear ideias é um excelente exercício;

– crianças entre 4 e 5 anos precisam aprender a limpar-se sozinhas ao ir ao banheiro e este treino começa muito antes disso, portanto, estimule sua criança a fazê-lo;

Uma última dica: tudo o que a criança pode fazer sozinha, deve fazer sozinha. Aquilo que ainda não pode, deve fazer com auxílio do adulto. Nunca o adulto fazer por ela.

E assim, com algumas orientações, atitudes simples e firmes é que podemos ajudar na formação de uma criança firme, forte, segura, feliz e inteligente, preparando-a para o inusitado da vida de hoje e para o futuro que ela vai viver e que não conhecemos. Você não vai se arrepender!

Diná Araujo Vaucher
Diretora Pedagógica e Orientadora Educacional